A cultura de colecionar os ingressos adquiridos para ver o time do
coração está com os dias contados. Há quase um ano, o acesso a estádios
com capacidade para mais de 20 mil pessoas se dá, obrigatoriamente, por
meio da biometria facial. Sem necessidade de apresentar um tíquete na
entrada, o torcedor libera a catraca apenas pelo reconhecimento do
rosto, cadastrado no momento da compra da entrada.
“O objetivo principal da biometria é fazer com que o ingresso seja
personalizado. Com isso, você elimina a possibilidade de esse ingresso
ficar circulando entre várias pessoas, de poder emprestar, trocar,
enfim. Elimina a fraude também, porque você não tem como copiar a face”,
descreveu Fernando Melchert, diretor de Tecnologia da Bepass, uma das
empresas que desenvolvem o sistema no país.
A exigência da biometria nas arenas para mais de 20 mil torcedores
consta no artigo 148 da Lei Geral do Esporte, de 14 de junho de 2023. A
legislação previu dois anos para adoção do sistema.
O Allianz Parque, em São Paulo, foi o primeiro estádio do mundo a ter
a tecnologia em todos os acessos, ainda em 2023. Segundo a Bepass, que
implantou o reconhecimento facial na arena do Palmeiras, a velocidade
para entrada do público aumentou quase três vezes. Já o Verdão ampliou
em pelo menos 30% o número de sócios-torcedores.
“Venho com minhas filhas. Para nós, é mais prático e rápido, pois
compramos [o ingresso] on-line, fazemos a [biometria] facial uma vez e
já libera”, contou o motoboy Marcos Antônio de Oliveira Saturnino, que
conversou com a TV Brasil antes de cruzar a catraca da Arena Barueri para o clássico entre Palmeiras e Corinthians pelo Campeonato Brasileiro Feminino.
“Sem dúvida nenhuma, houve um aumento de famílias nos estádios,
especialmente mulheres [32%] e crianças [26%] entre 2023 [antes da Lei
Geral do Esporte] e 2025”, destacou Melchert.
O público geral nas arenas também cresceu. A média de torcedores
presentes no Brasileirão Masculino do ano passado foi de 25.531 por
jogo. Considerando apenas as 269 partidas após a biometria facial se
tornar obrigatória, a média foi de 26.513 pessoas nos estádios. Cerca de
4% superior.
Há ainda clubes que instituíram o reconhecimento facial mesmo sem a
capacidade mínima exigida pela lei. Na Vila Belmiro, do Santos, cabem
cerca de 15 mil pessoas. Em 2024, o Peixe iniciou a operacionalização da
entrada de torcedores via biometria. O Alvinegro estima uma economia de
R$ 100 mil mensais (ou R$ 1,2 milhão anuais) apenas por não ter mais de
confeccionar carteirinhas.
“Conseguimos cadastrar um número recorde de pessoas e oferecemos, ao
mesmo tempo, mais condições de conforto e segurança para os torcedores
que estejam vindo à Vila Belmiro. Nós temos a possibilidade, com o
reconhecimento facial, de evitar questões inerentes a ingressos falsos e
cambistas”, afirmou o presidente do Santos, Marcelo Teixeira.
O argumento referente à segurança se dá pela conexão entre os
sistemas de biometria com o Banco Nacional de Mandados de Prisão. Os
dados são cruzados e, se o torcedor tiver alguma pendência jurídica, a
Polícia é acionada. No clássico entre Santos e Corinthians, na Vila
Belmiro, em 15 de março, pelo Brasileirão Masculino, três homens foram
detidos. Um deles era procurado por roubo e os demais pelo não pagamento
de pensão alimentícia.
Em nível nacional, um acordo de cooperação envolvendo a Confederação
Brasileira de Futebol (CBF) e os ministérios do Esporte e da Justiça e
Segurança Pública, em 2023, deu origem ao projeto “Estádio Seguro”. Em
São Paulo, uma parceria entre os clubes e a Secretaria de Segurança
Pública (SSP) integra os equipamentos a um sistema de monitoramento com
câmeras em todo o estado. No programa chamado “Muralha Paulista”, mais
de 280 foragidos foram identificados e detidos quando tentaram acessar
as arenas.
“Como o ingresso é personalizado, a gente sabe quem é o comprador.
Isso é enviado para a Secretaria de Segurança, que faz uma varredura
para ver se há alguma pendência e retorna a informação para o controle
de acesso e, obviamente, ao time de segurança que fica nas arenas. O
objetivo é que a Polícia cumpra esse mandato no momento que essa pessoa
frequentar o estádio”, descreveu Melchert.