O Rio Grande do Norte registrou o maior crescimento dos investimentos
públicos entre todos os estados brasileiros no primeiro semestre de
2026. As despesas liquidadas nessa área somaram R$ 620 milhões entre
janeiro e junho, com alta real de 300% em comparação com o mesmo período
do ano passado, já descontada a inflação. Os dados fazem parte de um
levantamento da consultoria Aequus, publicado pelo jornal Valor
Econômico.
O Estado também liderou o
ranking nacional quando são considerados, além dos investimentos, os
gastos classificados como inversões financeiras. Juntas, as duas
rubricas chegaram a R$ 660 milhões no primeiro semestre, expansão de
203,6% diante dos seis primeiros meses de 2025.
Apesar do crescimento expressivo, o valor
absoluto investido continua distante dos maiores orçamentos estaduais do
País. Dados da Secretaria do Tesouro Nacional (STN) mostram que os
investimentos representaram apenas 5% da receita total potiguar no
período, o menor percentual entre os estados do Nordeste.
A
execução orçamentária também revela o peso das operações de crédito no
resultado. Até junho, o governo estadual havia contabilizado R$ 833,8
milhões em receitas provenientes de empréstimos, montante superior aos
R$ 620 milhões efetivamente investidos no semestre e próximo da
totalidade do crédito prevista para todo o ano.
Parte
relevante desses recursos está relacionada ao Plano de Promoção do
Equilíbrio Fiscal (PEF), que permitiu ao Estado contratar financiamentos
com garantia da União. O dinheiro vem sendo direcionado principalmente à
recuperação da malha rodoviária estadual, uma das principais vitrines
da gestão da governadora Fátima Bezerra (PT), além de intervenções nas
áreas de saúde, educação, recursos hídricos e outras obras de
infraestrutura.
A alta registrada no
Rio Grande do Norte faz parte de um movimento disseminado pelo País. Dos
26 estados analisados pela Aequus, 22 ampliaram os investimentos em
termos reais no primeiro semestre. Em 16, o crescimento superou 30%,
enquanto 12 ficaram acima da média nacional de 40,6%. Depois do RN, as
maiores altas percentuais foram registradas por Tocantins, com 151%;
Paraná, com 141%; Minas Gerais, com 107,5%; e Sergipe, com 104,6%. Em
valores absolutos, Minas Gerais liderou, com R$ 4,24 bilhões, seguido
por São Paulo, com R$ 4,15 bilhões.
No
conjunto dos estados e do Distrito Federal, os investimentos chegaram a
R$ 42,9 bilhões entre janeiro e junho, o maior valor da série para um
primeiro semestre — crescimento real de 40,6% sobre 2025 e 13,9% acima
do resultado de 2022, ano da eleição dos atuais governadores, que até
então concentrava o recorde. Incluídas as inversões financeiras, as
despesas estaduais alcançaram R$ 59,6 bilhões, com alta real de 55,5%.
O
avanço foi favorecido pelos superávits acumulados nos últimos anos e
pela melhora da classificação dos estados na Capacidade de Pagamento
(Capag), nota concedida pelo Tesouro Nacional, que ampliou o acesso a
empréstimos com aval da União. As receitas estaduais provenientes de
operações de crédito somaram R$ 26,5 bilhões no primeiro semestre de
2026, crescimento real de 52,4% sobre igual período do ano anterior.
“O
problema é que a conta das operações de crédito chega lá na frente,
após o período de carência para pagamento dos financiamentos”, alertou
ao Valor Econômico o economista-chefe da ARX Investimentos, Gabriel Leal
de Barros. Segundo ele, a ampliação das dívidas pode dificultar a
situação futura de estados com orçamentos rígidos e elevada participação
de despesas obrigatórias.
O risco
ganha relevância no caso potiguar. Enquanto acelera investimentos, o
Estado ainda enfrenta desequilíbrios fiscais importantes: o regime
previdenciário estadual acumulou déficit de R$ 1,02 bilhão nos primeiros
seis meses de 2026, e o comprometimento da receita com despesas de
pessoal permanece entre os mais altos do País.
Os dados foram publicados na edição desta terça-feira 1º do jornal O Correio de Hoje.