Quem procura canetas de semaglutida e outros injetáveis para tratar diabetes tipo 2 ou obesidade encontra em 2026 uma prateleira bem diferente da que existia há dois anos. Novos fabricantes entraram no mercado da substância, houve lançamentos de liraglutida e chegou uma versão inédita do Mounjaro. O resultado aparece nos registros da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Foram 14 canetas aprovadas no país neste ano. Dez delas trazem semaglutida, três usam liraglutida e a restante é a nova apresentação do Mounjaro, feito à base de tirzepatida. A virada de chave veio quando acabou a exclusividade da semaglutida, princípio ativo que ficou conhecido pelo Ozempic e pelo Wegovy, ambos da farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk.
Ter mais opções na farmácia, porém, não reduz a escolha a uma comparação de preço nem de quilos perdidos. Quem coordena o Serviço de Endocrinologia e Metabologia no Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte, a médica Bruna Marinho, enumera o que precisa entrar na conta: o diagnóstico, o quanto o paciente precisa emagrecer, outras doenças que ele tenha, as evidências científicas de cada produto e a chance real de manter o tratamento por muito tempo.
Esse último item pesa porque diabetes e obesidade são doenças crônicas, que acompanham a pessoa por anos. O remédio pode ter de ser usado durante meses ou anos seguidos, e aí o custo mensal entra na decisão. Um produto com maior potencial de emagrecimento, caso do Mounjaro, a única tirzepatida com aval da Anvisa, pode não servir a quem não consegue bancar o uso continuado.
Os efeitos adversos completam o quadro. Esses medicamentos agem sobre o sistema gastrointestinal, o conjunto de órgãos que faz a digestão, e podem causar náusea, dor na barriga, refluxo, prisão de ventre e outras alterações. São reações que costumam aparecer no começo do uso e ajudam a explicar por que parte dos pacientes abandona o tratamento.
A maior movimentação do ano se deu mesmo com a semaglutida, aplicada uma vez por semana com a caneta, um aplicador em forma de canetão que já vem com a dose ajustada. A substância copia a ação do GLP-1, hormônio que o próprio corpo fabrica e que participa do controle da glicose, o açúcar que circula no sangue, e da saciedade. Ao ativar os receptores desse hormônio, a molécula segura a glicemia, corta o apetite e estica a sensação de estômago cheio, efeitos que ajudam a perder peso.
Até março, quem fabricava semaglutida no Brasil era só a Novo Nordisk. A proteção de patente, o período em que a inventora explora sozinha a molécula, caiu em 20 de março, e outras farmacêuticas puderam então registrar as próprias versões.
O primeiro a entrar na fila foi o Ozivy, da EMS, aprovado em 26 de maio, logo depois da queda da exclusividade. Ficou registrado para adultos que têm diabetes tipo 2 e não conseguem controlar a doença de forma suficiente com o tratamento em uso.
Dois meses adiante, a lista engordou de uma vez só. Em 29 de julho saíram cinco aprovações de fabricantes diferentes: da Ávita Care veio o Owozy; da Sun Farmacêutica, o Seemasun; a Brainfarma emplacou o Zempneo; a Cosmed, o Semavy; e a Ranbaxy, o Orsema. Todas as indicações informadas apontam para o mesmo público de adultos com diabetes tipo 2 sem controle adequado.
Agosto foi o mês dos genéricos. No dia 17 daquele mês, a EMS obteve o registro do primeiro genérico de semaglutida do país inteiro, produto que, pela legislação aplicada a essa categoria, não pode ter nome comercial. Na mesma data, a Anvisa liberou o Semaclique, da Germed, na condição de similar. Uma semana depois, em 24 de agosto, a própria Germed emplacou o segundo genérico. E em 31 de agosto a EMS ainda recebeu o Yluméc, similar na modalidade clone.
Para quem compra, a diferença entre as categorias importa. O similar tem marca e nem sempre pode ser trocado automaticamente pelo remédio de referência, aquele que foi registrado primeiro e serviu de base para os testes. Já o genérico segue regras próprias e chega às prateleiras sem nome comercial, identificado apenas pelo princípio ativo. O similar na modalidade clone é uma cópia idêntica de um medicamento já registrado pela mesma empresa, vendida com outro nome.

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