O caso da mulher que teria comido a placenta após o parto em um
hospital privado em Natal, que ganhou repercussão nas redes sociais,
chegou ao âmbito federal. A Agência Nacional de Saúde e a Secretaria de
Direitos Humanos da Presidência da República receberam na segunda-feira
(14) uma denúncia de violência obstétrica, como também a Secretaria
Municipal de Saúde de Natal e a Ouvidoria da Prefeitura Municipal.
O caso aconteceu no dia 2 de julho e a versão do médico Iaperi Araújo
foi compartilhada em várias redes sociais. Segundo o médico, a paciente
não realizou exames pré-natais e que teria dado um “verdadeiro
escândalo” no hospital. Iaeperi também alegou que houve conflito com o
paciente, “me tratou mal, gritou comigo (claro que respondi altura)”.
Após 12 dias do ocorrido, a paciente, que preferiu não se
identificar, falou a sua versão sobre o caso. “Fui chamada de louca,
psicopata, disseram que deveriam tirar meu filho de mim. Foram dez dias
também de intensificação de todo o sofrimento que me açoita, pois agora
eu tenho de lidar com inúmeros telefonemas, mensagens, pessoas
perguntando umas às outras se o absurdo da mulher que teria comido
placenta, agredido médico e corrido nua por aí tinha sido eu”, relatou.
De acordo com a paciente, ela chegou ao hospital depois de 36 horas
de trabalho de parto em busca de assistência obstétrica. Desejava um
parto domiciliar, mas o cansaço e a pressão da família a teriam feito
desistir.
A gestante garante que fez todos os exames e que, um dia antes de
entrar em trabalho de parto, um ultrassom teria confirmado a saúde e a
posição do bebê ideais para o nascimento.
Continuando o relato, a paciente diz que, inicialmente, lhe foi
negado atendimento. Ela também contou que o obstetra provocou o
rompimento de membranas no exame de toque sem autorização dela (prática
comum em hospitais brasileiros, para acelerar o parto) e realizou uma
episiotomia. “Meu pai disse que ele cortou com a tesoura e terminou de
rasgar com a mão”, afirmou.
Sobre correr nua no hospital, ela conta que teve o pedido de ficar
com o filho nos braços negado e a pediatra levou a criança para o
berçário. “Eu estava transtornada. Tentaram me impedir de sair da sala
de parto, pois eu estava nua. Foi então que me deram meus trapos sujos
de sangue, vesti ali no corredor mesmo, e fiquei gritando na frente do
berçário, de portas trancadas, gritando que queria meu filho comigo”.
Após a discussão, o bebê foi entregue ao pai da paciente.
A denúncia da gestante também foi encaminhada pela Associação
Artemis, aceleradora social, através do relato colhido pelo Movimento de
Humanização do Parto e do Nascimento em Natal.
O documento de denúncia aponta diversas legislações técnicas de saúde
que foram infringidas, colocando a saúde da mãe e do bebê em risco. A
principal delas diz respeito à episiotomia, um corte feito no períneo da
mulher sob a justificativa de facilitar a passagem do bebê na hora do
parto.
“A episiotomia é expressamente não recomendada pela Federação
Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), e por um documento
técnico que compõe a Resolução 262/2011 da Agência Nacional de Saúde
Suplementar (ANS). O hospital em questão é de convênio, deveria observar
essa resolução e a ANS tem obrigação de fiscalizar o descumprimento
dela”, diz Valeria Sousa, da Artemis.
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