Ligia, usuária de droga e mãe de um bebê de 7 meses (ANDRE LIOHN/VEJA)
De poetas a biólogos evolucionistas, não
faltaram ao longo da história tentativas de explicar, quantificar e
enaltecer o sentimento mais nobre e inquebrantável do ser humano. O amor
de mãe desafia as forças destruidoras da guerra, da miséria e do
preconceito. Prontifica a mulher ao autossacrifício e lhe dá coragem
redobrada quando se trata de salvar os filhos. Se há objetivo no amor, o
materno é todo voltado para a proteção da prole. O instinto impele a
mãe a ficar do lado dos filhos — para tê-los em seus braços, para
assegurar-lhes as condições para crescer felizes e em segurança. O que
dizer do surgimento de uma força que se tem mostrado potente o bastante
para superar até o amor de uma mãe pelo próprio filho? Essa força
existe, só pode ser descrita como infernal e está se espalhando pelo
Brasil com o nome de crack.
Essa droga barata, feita de pasta-base
de coca, bicarbonato de sódio e amônia, quando inalada, leva à produção
no cérebro de quatro vezes mais dopamina (um hormônio que dá sensação de
prazer) do que a cocaína. Quatro em cada dez dependentes de crack têm
endereço fixo. Não são, ainda, parte daquela multidão de andarilhos que
vemos nas ruas, pele e osso, maltrapilhos, com o olhar petrificado. O
crack está destruindo famílias, jogando no lixo décadas de estudo de
suas vítimas e produzindo uma geração dickensiana de órfãos de pais
vivos, abandonados em “lares sociais” para ser criados pela caridade dos
outros. Muitos são filhos da classe média que, não fosse pelo crack,
estariam de mãos dadas com o pai ou a mãe indo para a escola ou
aprendendo a andar de bicicleta nos parques nos fins de semana.
Oito em cada dez crianças abandonadas
são filhas de dependentes químicos. Milhares de brasileiras engravidaram
sob o efeito do crack, gestaram seus bebês drogadas e agora lutam
contra o vício para não perder seus filhos. São mulheres como a
ex-estudante de pedagogia Ligia Carvalho Fiochi, de 34 anos, de São
Paulo, cuja história é contada nestas páginas. A reportagem de VEJA
acompanhou Ligia durante pouco mais de cinco meses, começando três meses
depois de ela dar à luz Lethicia. O embate entre o desejo de cuidar da
filha e a vontade por diversas vezes incontrolável de usar a droga que a
afasta do instinto materno é uma síntese do que enfrentam diariamente
muitas outras mães brasileiras. Via Veja.
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